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ÁLVARO TUKANO

ÁLVARO TUKANO

Nasci na aldeia São Francisco, hoje inexistente por vários motivos que tivemos que enfrentar com certos missionários de Pari Cachoeira, Rio Tiquié, Amazonas. O papai, Ak?to, em Tukano, e Casimiro Lôbo Sampaio, em português, mesmo sabendo que eu tinha ainda os meus oito anos incompletos me levou no Colégio Dom Bosco, em Pari Cachoeira, no dia 27 de fevereiro de 1963. Na Diretoria daquele colégio nos encontramos com Padre José Dalla Vale, um italiano de rosto vermelho, forte e cujo temperamento espiritual e seus gritos nos faziam encolher os nossos corações. Fiquei por lá durante oito meses no colégio interno. Sobre essas experiências escrevi para deixar aos nossos futuros líderes, porque é necessário guardar a memória de nossos movimentos. Essa jornada de Pari Cachoeira só terminou em 1966. A segunda jornada começou no Colégio Dom Pedro Massa, em São Gabriel da Cachoeira, no Rio Negro. Era o ano de 1967 e foi nessa ocasião que conheci outros alunos índios que vieram das seguintes missões: Taracuá e Iauareté que falavam a Língua Tukana. Conheci os de São Gabriel da Cachoeira e Içana que falavam a Língua Geral ou nhegatú, e alunos Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos que só falavam o português por serem de ambiente dominado pelo sistema neocolonialista. Essa confusão boa e interessante terminou em 1973 e 1974, ocasião quando terminamos o segundo grau supletivo. Seguindo os passos de alguns índios que estudavam nos colégios de Salesianos em Manaus, Porto Velho, Belém, São João del Rei, Recife, Corumbá e em outras cidades do interior do Estado de São Paulo por onde instalaram esses missionários, também, em fevereiro de 1974, fui convidado por S Excia. Dom Miguel Alagna, Bispo Prelado do Rio Negro para cursar a Filosofia em Manaus, na condição de Secular. Por circunstâncias políticas que tive com meu superior, porque eu trabalhava demais e que não tinha apoio para comprar o material escolar e roupa, achei por bem regressar ao meu povo. Assim, fiquei trabalhando em Pari Cachoeira e Taracuá na condição de professor primário até no ano de 1975. A vida de professor foi interessante para alfabetização dos meus parentes internos. Ser o "professor" dava "status social"; limitava a liberdade de pensamento indígena, isto é, fomos obrigados a seguir a doutrina e o calendário escolar da Igreja e Estado. Não tive o "sucesso" como professor, discuti com as freiras e padres que nos subjugavam como seres superiores de tais colégios. Resmungar a qualquer superior da missão custava "atenção", ser mais "Cristão" submisso às leis externas. Enfim, todos os meus ex-alunos tornaram-se, posteriormente, grandes líderes e que defendem as tradições indígenas. Em 1977, em São Gabriel da Cachoeira, prestei o serviço militar no 1º Batalhão de Engenharia e Construção - 1º BEC, e trabalhei como padiolheiro no Hospital Misto daquela unidade do Exército. Depois que recebi baixa, também permaneci naquele mesmo hospital, em 1978, até o mês de agosto. No dia 13 de agosto de 1978 cheguei em São Luis, estado do Maranhão, com a idéia de Cursar a Faculdade de Medicina, graças ao apoio que recebi do Dr José Albino Couto Filho, médico e oficial do Exército que serviu em São Gabriel da Cachoeira, hoje, falecido devido ao acidente naquela capital. Nos anos de 1978 a 1980, em São Luis, conheci a situação triste dos índios Guajajara que brigavam com a Polícia Federal e fazendeiros para defender seus territórios; e muitos deles foram mortos por militares que mencionei e suas tripas foram arrancadas e seus cadáveres foram preenchidos com barro para não boiar e depois jogados no rio. Como eu era de outra região, tive cautela e acompanhei o caso de longe, mas sempre lendo alguns livros que falavam de índios nas bibliotecas daquela cidade. Aliás, vendo tantos crimes com o povo indígena, evidentemente que perdi o gosto de fazer Medicina, isto é, o jeito era organizar melhor os nossos povos e lutar juntos. Assim começou outra etapa, procurar outros índios e discutir juntos como deveriam ser os nossos programas. Após ter muitas discussões com Padre Norberto Hohoncherer, em Pari Cachoeira, e conhecendo a ação nociva de certas freiras que mandavam índias para cidades a serviços de oficiais da FAB, em 24 de novembro de 1980 acusei Dom Miguel Alagna por toda essas conivências de destribalização. Como fator marcante na História do Movimento Indígena no Brasil, deixei um texto importante sobre esse assunto. Desde 1980 a 1993, ou seja, até 1995 tenho me dedicado ao Movimento Indígena a meu modo, junto com alguns companheiros. Portanto, mais da metade de minha vida passei pelas diversas tribos, aldeias e realizando grandes assembléias ou mesmo me encontrando com líderes importantes e com pessoas das mais sérias para nos ajudar nessa luta.